segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Psicanálise atacada por filósofo Francês

Admiro a coragem que determinadas pessoas tem em tentar destruir uma imagem consolidada e séria, como a teoria psicanalítica iniciada por Freud e desenvolvida por muitos outros psicanalistas de projeção mundial. 

Admiro mais ainda a tremenda "cara de pau" dessa pessoa quando, após "chocar" e confundir meia dúzia de incautos, mostrar ao que veio, tentando impingir uma nova teoria, baseada na que tenta destruir, mas sem qualquer fundamentação, e ainda chamando-a de "Psicanálise não Freudiana".
 
É assim que surge Michel Onfray, filósofo francês, autor de "A Morte de Deus" e, agora, autor de "Crepúsculo de um Ídolo", atribuindo a cura psicanalítica a um simples efeito placebo e rotulando Freud de charlatão.

Suas declarações começam a fazer sentido no momento em que descobrimos o que ele pretende: Nada mais do que lançar suas ideias sobre uma nova terapia, chamada por ele de Psicanálise não-freudiana, essa sim, segundo ele, a que realmente cura (tema de seu próximo livro)!

Na sua entrevista, publicada na Superinteressante 285 / Dez-2010, ele aponta os erros de Freud:

1) Michel Onfray diz que Freud omitiu seus erros médicos, considerando como erro ter receitado cocaína a Fleischl von Marxow, que morreu.

Meus comentário: 

- Em diversas obras sérias em alemão e em francês há relatos sérios sobre tal assunto, evitando o "reducionismo perverso" cometido por Onfray nessa sua tentativa destruir a imagem desse gênio que foi Freud. Há também uma tradução muito boa em português: "Freud: o lado oculto do visionário", de Louis Breger, editado no Brasil pela Editora Manole Ltda, de São Paulo em 2002.

- Na página 97 desse livro consta todo o processo que levou Freud a receitar cocaína a Fleischl. Todos os médicos, na época, utilizavam a cocaína sem ter ainda noção dos seus efeitos colaterais. Só com a constatação de resultados negativos foi que a cocaína passou a ser banida dos tratamentos e do consumo livre. 

- Lembrem-se, para não serem ludibriados por mais espertalhões como Onfray, que na medicina a coisa funciona exatamente assim. Antigamente usava-se a radiografia (raio-X) livremente e sem qualquer proteção. Os cuidados que são tomados hoje são resultado do imenso número de mortes por radiação, principalmente entre enfermeiros e médicos que trabalhavam com esse equipamento. Da mesma forma a peniscilina. Lembro que, em mina infância, qualquer enfermidade que eu tinha era receitado peniscilina. Hoje sabe-se que o consumo exagerado desse antibiótico pode causar problemas sérios. 

- Então falar mal de Freud por ter receitado cocaína naquela época é querer ignorar a noção de tempo, época e cultura. Teríamos que falar mal também de todos os grandes da época, entre eles Fliess, Breuer, Karl Koller e muitos outros.  

2) Michel Onfray diz que Freud não curou Sergei Pankejeff (o homem dos lobos).

Meu comentário:

- Sempre existe uma cura de alguma neurose quando se aplica a terapia psicanalítica de forma correta. E o próprio Onfray vai dizer isso, mais tarde, quando começar a divulgar a sua "nova forma" de fazer a mesma psicanálise! E no caso de Sergei, se existia uma neurose ela foi curada. 

- O problema insolúvel que ele manteve durante toda a sua vida era relacionado a uma atrofia cerebral que jamais poderia ter sido descoberta naquela época, já que não havia equipamento adequado para isso ainda. Só nesse nosso século XXI conseguiu-se detetar a principal consequencia do abuso sexual na infância e que fez com que muitos pacientes passassem por terapias maravilhosas, mas que nada resolveram. Freud nunca poderia ter descoberto isso sem os equipamentos de visualização dos neurônios que temos hoje. 

- O problema de Sergei Pankejeff, o abuso sexual que sofreu na infância por parte de pessoa da família, provocou (só hoje sabemos) uma atrofia neural no hemisfério esquerdo cerebral, reduzindo a sua capacidade de raciocínio lógico. Grande parte dos adolescentes que, na infância, sofreram abusos sexuais, acabam cometendo suicídio, exatamente por não terem o raciocínio lógico desenvolvido o suficiente para evitar atitudes exclusivamente de cunho emotivo.

- Para essa anomalia provocada não se aplica a psicanálise, mas isso não se sabia antes e até hoje ainda não é de conhecimento geral. A única forma de se reduzir as terríveis consequencias da redução do raciocínio lógico e assim evitar o suicídio de tantos jovens, é fazer a terapia lógica, que nada mais é do que estimular jogos de xadrez, exercícios de lógica matemática e muitos exercícios de matemática! 

Concluindo acredito a palavra charlatanismo empregada por Onfray para definir Freud deveria estar sendo mais bem empregada para definir a si  mesmo.

Reflexões preliminares no estudo da neuropedagogia

Reflexões preliminares ao estudo da neuropedagogia
 
Nos dias 19, 20 e 21 de novembro passado teve início do estudo neuropedagógico na cidade de Jequié. Essa área, ainda nova no Brasil, veio preencher uma lacuna imensa no entendimento, acompanhamento e tratamento das crianças e adolescentes com anomalias neurológicas, psíquicas e comportamentais. Nesse primeiro encontro surgiram algumas reflexões que podemos considerar básicas para o sucesso dessa nova área profissional. Leia o artigo completo em:
http://iupe.webnode.com/educacao-/neuropedagogia-em-jequie/

domingo, 5 de dezembro de 2010

domingo, 28 de novembro de 2010

Inclusão de autistas e outras anomalias

Mais uma vez vemos o autismo ser discutido nos jornais, após a realização do seminário "Autismo: boas práticas da inclusão escolar". Mais uma vez se tenta mostrar ao público responsável (professores e pais) que a inclusão do autista na escola normal, seja qual for o seu grau de autismo, deve ser uma realidade e deve despertar em todos os profissionais envolvidos, o entusiasmo pelo desafio de desenvolver métodos e técnicas que melhorem, a cada dia, a relação do autista com o meio em que vive. Isso é a mais pura verdade!

Mas percebi que um dos enfoques do seminário foi a falta de profissionais capacitados, nas escolas, para o atendimento dessas crianças, o que desloca o centro de atenção do problema para uma grande falha no sistema educacional, já que ele determina uma inclusão e não dá meios para tal possibilidade real. Vamos analisar esse enfoque para verificar se realmente isso é verdade e se alguma coisa pode e deve ser feita para reduzir essa dificuldade apontada no seminário.

Não precisamos ir muito longe para perceber que o problema não está diretamente ligado a essa falha no sistema educacional nem mesmo na falta de profissionais capacitados para essas anomalias, mas sim na forma como o sistema de formação profissional dos educadores mostra as diferentes anomalias comportamentais e cognitivas e, além disso, na forma como estão sendo entendidos os objetivos educacionais como um todo. O mau entendimento de um prejudica o entendimento do outro.

Todas as crianças que apresentam sintomas característicos das mais diferentes anomalias, incluindo aí o déficit de atenção, dislexia, discalculia, esquizofrenia, déficit cognitivo, hiperatividade e, nesse caso, os transtornos de espectro autista, são rotuladas como crianças doentes e que devem estar sob a responsabilidade de terapeutas e médicos, e que devem ser atendidas, na escola, por profissionais devidamente preparados para tais anomalias. Onde estão os erros desses enfoques?

a) Crianças rotuladas como anormais:

O maior erro dessa declaração está na análise dos sintomas. A pressa em "se livrar" da responsabilidade faz com que professores e pais criem um diagnóstico precipitado, rotulando seus filhos ou alunos como crianças anormais. Assim rotulando a responsabilidade pelo seu acompanhamento deixa de ser dos pais e professores e passa para a esfera terapêutica ou médica, muitas vezes com uso de remédios controlados. 

Deixando de lado os casos evidentemente diferenciados, como no caso de surdos, mudos, cegos, deficientes físicos e outros que, pela sua especificidade podem, realmente, necessitar de atendimento especializado, os demais casos devem ser analisados com muita cautela, principalmente devido ao constante aparecimento de "falsos sintomas".

Embora haja crianças e adolescentes com anomalias verdadeiras, a grande maioria das crianças de hoje apresenta os mesmos sintomas, considerados, então, como "falsos sintomas". As características desses sintomas são muito semelhantes às das doenças reais, mas os motivos são outros. Essas crianças são normais, sem qualquer tipo de anomalia, mas apresentando bloqueios emocionais gravíssimos, sempre provenientes de carência afetiva, carência de limites, educação equivocada, maus tratos, incompreensão familiar, intolerância social, bullying ou outros atos prejudiciais à sua formação. 

Como a carência afetiva e a carência de limites estão na esfera da educação doméstica, entende-se a razão da "fuga" de responsabilidade por parte de alguns familiares que não querem assumir que os seus erros no relacionamento familiar possam ser os principais causadores dos sintomas dessas crianças. 

b) Professores precisam de preparação específica para atender cada anomalia:

Para aqueles casos diferenciados comentados anteriormente (surdos, mudos, cegos e outros) há necessidade de profissionais devidamente especializados. Os demais casos estão dentro da competência que cada professor precisa desenvolver a partir de seu curso de técnica de magistério, formação pedagógica ou durante o período de licenciatura.

Isso significa que o seu acompanhamento deve ser exatamente o mesmo acompanhamento que todos os professores deveriam estar dando a todos os alunos de suas turmas, ou seja: procurar analisar quais as características de entendimento e compreensão que cada um dos alunos de sua turma possui para, a partir dessa realidade, entusiasmar a todos eles para que queiram adquirir mais conhecimentos e desenvolver mais habilidades.

Temos que deixar bem claro que não existe turma homogênea! E temos que mostrar, a cada momento, que é um grande erro querer que todos os alunos  de uma mesma turma obtenham resultados semelhantes, entendam as explicações da mesma forma, entusiasmem-se a partir dos mesmos elementos motivacionais.

Outro grande erro, consequente do primeiro, é querer fazer comparações entre alunos! O desempenho e a habilidade de um aluno só pode ser comparado com o desempenho e a habilidade dele mesmo, no dia de ontem! Nunca com o de outro aluno! E a cada progresso de cada aluno, por menor que seja, deve haver o devido reconhecimento e deve ser clara a expressão de alegria do professor durante essa constatação de progresso.

O erro complementar, que é normalmente compartilhado por professores e pais, constitui o entendimento do aluno como uma vítima, um "pobre coitado", que deve ser visto "com pena e resignação", e que não deve, por isso, ser submetido a exigências muito severas de aprendizagem. Erro gravíssimo, sendo, inclusive, o principal responsável pelo fracasso na evolução cognitiva e comportamental de todas as crianças, sejam elas as que apresentam falsas anomalias, como as que possuem anomalias verdadeiras.

Todas as crianças são diferentes e devem ser entendidas assim, mas essas diferenças determinam apenas o tipo de trabalho que vai ser exigido delas, mas nunca a dispensa de exercícios, atividades, trabalhos escolares e deveres de casa. Esse é o momento mais polêmico, já que grande parte dos professores perde a noção do tipo de trabalho a ser determinado para tais alunos, e também grande parte dos pais reclama das exigências dos professores de seus filhos. 

Ajuda aos professores:

a) Anomalias que dificultam o entendimento e limitem as habilidades:

- Os trabalhos devem ser sempre em nível abaixo do nível de entendimento desse aluno, já que o objetivo inicial é elevar a sua auto-estima para que ele se entusiasme pelos exercícios a partir dos resultados alcançados. 
- Todo e qualquer resultado deve ser reconhecido com alegria e entusiasmo. 
- Os trabalhos devem ser constantes e com exigência de prazos, para evitar a preguiça mental camuflada por trás da deficiência presumida. 
- O professor deve "esquecer" a necessidade de "cumprir" um programa padrão para esses alunos, já que seu programa será determinado pelo seu próprio progresso, independente da série escolar em que ele estiver matriculado.
- Por ocasião do Conselho de Classe, ao final do ano letivo, deve ser analisada se o aluno terá mais chances de progredir repetindo a série em que está ou se sua necessidade afetiva exige manter a companhia dos colegas que estarão na série seguinte. Essa análise é determinante para a promoção ou não do aluno a série posterior, independente dos resultados alcançados. Toda essa análise precisa ser registrada e enviada à Secretaria de Educação para acompanhamento e orientação.

b) Anomalias características de hiperatividade ou inquietação excessiva:

- Grande parte dos alunos considerados hiperativos ou com inquietação excessiva são apenas crianças e adolescentes dotados de elevada capacidade cognitiva e, por isso, não conseguem ficar muito tempo numa sala de aula em que nenhum desafio estimulante seja apresentado. 
- Para esses alunos os trabalhos devem ser sempre em nível desafiador, de forma que estejam sempre buscando a ampliação de sua capacidade atual.

c) Anomalias caracterizadas pelos diversos transtornos de espectro autista:

- Nesses casos deve haver uma busca constante do "foco de atenção" desse aluno, para que todo trabalho seja desenvolvido a partir desse foco.
- O professor deve "entrar" no universo particular desse aluno, para ser "aceito" por ele como igual e, assim, ser estimulá-lo a progredir.
- Nenhuma expectativa deve ser criada em torno desse desenvolvimento. O trabalho pode ser repetitivo durante um longo período e, em  determinado momento, dar um salto imenso de evolução.
- Isso significa criar técnicas e aplicá-las pelo simples prazer de criá-las e aplicá-las, sem exigir que surjam resultados imediatos e sem dar prazo para observar tais resultados.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Autismo: novos caminhos

Num artigo anterior comentei sobre um detalhe enriquecedor em relação aos autistas. Esse detalhe tem início na identificação do seu “foco de atenção” e, a partir dessa identificação, a descoberta e estímulo de alguma habilidade especial.
É sabido que, por algum motivo ainda inexplicado, grande parte das pessoas com T.E.A (transtorno de Espectro Autista) possui alguma habilidade específica num grau de desenvolvimento muito superior ao de qualquer pessoa considerada normal. Isso surpreende a sociedade!
Essas surpresas, entretanto, nem sempre ocorrem de forma positiva, mas de forma compensatória, ou seja, não se admira, simplesmente, aquela habilidade especial. As pessoas, normalmente, se espantam, tentando entender como uma pessoa “mentalmente anormal” consegue superar as “ditas normais” em atividades intelectuais, criativas, tecnológicas e outras!
Devido a essa forma de entender o autista, a exclusão acaba ficando evidente, mesmo que de forma inconsciente, o que só dificulta o desenvolvimento de todas as outras crianças portadoras de T.E.A ou de qualquer característica especial ou diferenciada.

Cada criança, seja ela autista ou não, deve ser entendida como um novo ser, com características próprias e que precisam ser entendidas, analisadas e compreendidas para que, a partir dessa compreensão, possamos começar o nosso trabalho individualizado visando o seu desenvolvimento intelectual e emocional.
As técnicas a serem desenvolvidas para cada anomalia podem até sofrer variações, mas a compreensão do novo é a base determinante e de extrema importância para todos os casos, incluindo aí aqueles considerados "normais".
Lembrando as partes principais do artigo, recomendamos a atenção ao perigo das comparações! Evitar comparações é uma necessidade básica na relação ensino aprendizagem de qualquer pessoa em qualquer nível. Cada criança é um individualidade e deve ser compreendida como tal. Toda comparação só deve ocorrer entre a criança hoje e ela mesma ontem!
Há necessidade, então, do educador ou terapeuta entrar no universo da criança, como se fosse o seu próprio universo, identificando, assim, o seu foco de interesse. Estimula-se esse interesse ampliando-o socialmente da forma que for possível. Procura-se descobrir habilidades ligadas a tal foco ou, em alguns casos, apenas identificá-las e estimulá-las.

E o mais importante: deve-se demonstrar verdadeira alegria e felicidade com cada vitória alcançada pelo aluno, por mais ínfima que ela seja, visando o aumento de sua auto-estima. Nunca criar expectativas de resultados, mas estar sempre satisfeito com os que estão sendo alcançados, sem deixar de insistir na realização de exercícios e trabalhos, sempre dentro da capacidade e habilidade desenvolvida.

Poucos meses após a divulgação dessas sugestões já surgem alguns resultados positivos. Diversos professores e terapeutas relatam que estão conseguindo conquistar uma relação interpessoal com seus alunos autistas. Esses já alcançaram a fase de "entrar no universo" do autista, identificar o seu "foco de atenção" e ser considerado um parceiro confiável.
Isso nos anima a prosseguir com as experiências e realizar a segunda parte da metodologia, essa já contando com a colaboração dos professores das disciplinas, já que consiste em adequar o ensino de algum assunto dentro de cada disciplina, a partir do foco de atenção. A forma de adaptar esse método a cada matéria é a tarefa que deve ser realizada agora por cada um dos professores envolvidos.

Há casos, entretanto, em que a relação interpessoal é praticamente impossível, principalmente em autistas com síndrome mais difíceis, como por exemplo, a síndrome de Rett. Mas até para esses casos já se vislumbram soluções, principalmente quando há um cientista brasileiro envolvido! Isso não é piada! É a pura realidade! O trabalho que está sendo realizado pelo biólogo brasileiro Alysson Muotri, visa a cura de todos os autistas, por meio da transformação de células tronco em neurônios autistas para depois iniciar o seu processo de cura.
 
Seu trabalho, publicado pela revista CELL, mostrou a criação de neurônios autistas em laboratório, identificou suas diferenças em relação aos neurônios normais e, ao final, tratou-os fazendo com que se transformassem em neurônios normais. Uma reportagem sobre seu trabalho está publicada na página 72 da Revista Época de 15 de novembro de 2010 com o título "Autismo in vitro".
 
(Lembrem de Miguel Nicolelis, outro brasileiro, esse neurologista, que está a meio caminho de descobrir a cura definitiva do Mal de Parkinson e da Epilepsia, tendo iniciado todas as suas pesquisas devido a sua curiosidade que tinha, como simples técnico de computador, em entender e analisar a sinfonia dos neurônios que apareciam nas telas dos eletroencefalogramos nos quais ele fazia manutenção.)
 
Enquanto aguardamos os resultados das pesquisas de Alysson Muotri e observamos o sucesso da trajetória de Miguel Nicolelis, vamos continuar estimulando nossos colegas a buscar melhorar a competência necessária para o entendimento e o desenvolvimento de todas as crianças e adolescentes que estiverem ao nosso alcance, sejam quais forem as suas características psíquicas, emocionais ou intelectuais.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Desânimo escolar: como entender e reverter?

Estamos acostumados a estudar todos os tipos de anomalias comportamentais, cada uma com uma classificação diferente, de simples dificuldades a síndromes e transtornos, mas todas trazendo prejuízos incalculáveis ao crescimento intelectual e emocional do aluno. Nossos estudos visam reduzir tais prejuízos a partir do entendimento dessas anomalias e do desenvolvimento de metodologias educacionais apropriadas a cada caso.
Uma delas, entretanto, tem sido ignorada pela maioria dos educadores e pelas famílias, já que a entendem como simples atitude de “revolta adolescente” ou de “apatia intelectual” típica da idade ou coisa parecida. É o “desânimo escolar”!
Esse desânimo faz com que o aluno desista de fazer qualquer esforço para aprender algo, procure sempre fazer algo, na sala, que nada tenha a ver com a aula, resista bravamente a qualquer atividade passada pelo professor ou esteja sempre com ar de cansado e desanimado.
Em casa ele nada faz. Se os pais perguntarem sobre atividades escolares, as respostas variam entre:
- Os professores não passaram nenhuma atividade para casa;
- Os professores não deram nada na aula hoje;
- Já fiz todos os deveres antes de sair da escola, hoje mesmo.
Basta observarmos qualquer sala de aula para identificarmos pelo menos dois alunos com essas características. Dois porque normalmente as atitudes desses alunos podem ser consideradas como “quase contagiosas”. Esse aluno não se sente bem sendo o único em sala a proceder assim. Devido a isso, ele trabalha, até de forma inconsciente, como “sabotador”, levando colegas a adotarem esse mesmo procedimento em sala.
Vamos hoje analisar de forma diferente. Não vamos tentar identificar as causas, mas vamos identificar meios de reduzir e até eliminar essa anomalia, principalmente por ser ela responsável pela maioria dos insucessos escolares, médias baixas, reprovações e, em casos mais graves, decepções emocionais dos pais, alguns chegando ao ponto de “desistir” da educação de seu próprio filho, como já tive a infeliz oportunidade de presenciar.
Temos um caminho simples a seguir, mas que deve ser seguido tanto pelos pais, em casa, como pelos professores, na escola.

Iniciaremos pelos pais:

Não interessa quanto tempo você tem disponível para estar com seu filho. Esse tempo deve ser verdadeiro. Esse tempo deve ser bem aproveitado com assuntos que estejam sempre contribuindo para estimulá-lo aos estudos, pesquisas, trabalhos e lazer programado.
Um dos maiores perigos nessa relação de responsabilidade é achar que o outro é o que deve dar mais atenção ao filho. Nessa relação cada um tem um papel individual importantíssimo e insubstituível. O filho precisa ter a atenção de um e de outro individualmente e em conjunto. Mas precisa de atenção verdadeira, ou seja, que seja mostrado interesse real pelo que ele faz, pelos seus estudos, pelos assuntos que está pesquisando e pelas suas próprias conclusões.
Uma criança ou um adolescente que escreve um texto e não percebe interesse de ninguém pelo que escreveu, começa a ficar desgostoso com seus estudos e pode entrar no processo do desânimo de que estamos tratando.
Assistir telejornais na companhia do filho para discutir assuntos do momento e que podem estar relacionados aos assuntos estudados na escola é uma das formas de reduzir e até evitar esse desânimo.
Dedicar-se a ler a produção diária de seu filho, não para confirmar se foi feito alguma coisa, mas para elogiar suas ideias e sugerir novos questionamentos aos mesmos fatos, é a melhor forma de “vaciná-lo” contra desânimos. Assim você também estará garantindo o seu sucesso.
Em nossa escola você ainda tem a possibilidade de fazer todo esse acompanhamento mesmo estando a milhares de quilômetros de distância, já que esse contato pode ser feito diariamente pela internet, através do acesso ao BLOG individual de seu filho.

Agora os professores:

Só mesmo alunos muito bem resolvidos em sua vida pessoal e familiar podem conseguir ficar em uma sala de aula ouvindo um professor tagarelar o tempo todo, mesmo que o assunto seja interessante!
Mesmo assim se esses alunos não tiverem capacidade intelectual acima da média, já que para esses a inquietação é imediata e o sentimento de estar “perdendo tempo” pode fazer aparecer toda a sintomatologia de um aluno mal educado, desanimado, hiperativo e tudo o mais.
Uma aula precisa, antes de tudo, ter objetivos mais realistas e menos teóricos. O importante da aula não é o assunto a ser “dado”, mas a forma de entusiasmar cada aluno, na sua individualidade, pela matéria, pelo assunto, pela pesquisa e pelo questionamento sobre o tema do dia.
O ponto básico da aula é o uso de todos os minutos reservados para essa aula, sem “espaços vazios”! Espaços criam expectativas e ansiedades, a princípio, e desânimos perigosos, mais tarde. Os alunos devem sentir que estão sendo úteis para consigo mesmo, durante todo o tempo da aula. Deixá-los “à vontade” não os deixa à vontade. Cria-se uma insatisfação por perda de tempo. Eles podem até “achar” que estão gostando desse momento do nada fazer, mas sentem a “perda de tempo” e começam a ficar inquietos e estressados. O tempo parece demorar mais a passar e a campainha de final de aula fica sendo aguardada com mais ansiedade do que nunca!
Por isso que o planejamento da aula deve prever vários tipos de atividades, principalmente debates em grupo logo após o assunto do dia ter sido explanado, incluindo aí tarefas extras para quem terminar um teste antes dos outros. Um aluno não consegue ficar quieto em sala se não tiver algo importante e útil para fazer.
Visto o ponto básico do uso de todos os minutos, vamos ao entusiasmo do aluno.
Conseguir entusiasmar a todos com a mesma forma metodológica é praticamente impossível. Cada aluno reage de uma forma diferente a depender de suas características próprias.
E a única forma deles expressarem suas características e assim descobrirmos a forma de alcançá-los é deixando-os livres para trabalhar individualmente ou em grupo, assim que o tema principal da aula tiver sido apresentado. A partir desse momento o professor, passeando pelos grupos, começa a procurar entender as características dos indivíduos e dos grupos, podendo adaptar suas metodologias e conseguir melhores resultados.
Querer ensinar o assunto do programa sem procurar descobrir o que cada aluno pode aprender e de que forma ele conseguirá se entusiasmar, é desperdício de tempo e serve apenas para criar um sentimento de incompetência no professor, criando estresse e provocando descontrole emocional e intolerância. Comenius já dizia isso desde antes da didática ser criada no mundo: “Age idiotamente aquele que pretende ensinar aos alunos não quanto eles podem aprender, mas quanto ele próprio deseja” (Comenius, século XVII, na Didacta Magna)
Se cada professor observar esses dois detalhes em suas aulas e se todos os pais passarem a demonstrar interesse pelos assuntos estudados pelos filhos, não haverá alunos desanimados, não haverá médias baixas e não haverá reprovações.
Somos nós os responsáveis pelo desânimo ou pelo entusiasmo dos nossos filhos e alunos. Então está em nossas mãos essa mudança! Mas precisamos todos agir independente do outro estar fazendo ou não a sua parte!

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Aluno como principal referência no aperfeiçoamento da competência do professor

Interessante a formação do professor! Estudam-se todos os principais teóricos, de Piaget a Wygotsky, passando por uma interminável lista de referências. Os semestres são preenchendo com infindáveis leituras, interpretações, debates, provas, trabalhos, seminários, palestras e conferências.
Para os que se dedicam com entusiasmo e com afinco, ocorre a construção, ao longo desse período, de um alicerce de conhecimentos teóricos invejável. E para completar a carga horária e preencher os requisitos mínimos da sua formação, o educador faz um estágio em uma sala de aula, supervisionado por um professor titular.
Tudo lindo e maravilhoso até o dia em que ele assume a reponsabilidade de uma turma só sua! Nesse momento tudo começa a tomar outro rumo, principalmente quando encontra alunos, nessa turma, que não preenchem os requisitos do aluno padrão tão desejado pelo educador padrão, que acredita em resultados padronizados ao seguir as metodologias aprendidas no decorrer de sua formação.
Desse dia em diante tem início a construção da personalidade neurótica e estressada, característica de grande parte dos profissionais em educação, já que os fantasmas do meio educacional começam a aparecer em sua frente.
Eles, os fantasmas, aparecem em forma de coordenadores exigentes demais, salário baixo demais, tempo escasso demais, pais intransigentes demais, alunos desestimulados, preguiçosos, bagunceiros, irritantes, agressivos, hiperativos, doentes, marginalizados, etc., etc.
Alguns desses educadores se irritam, e desistem, “jogam a toalha”, fogem da sala e dos alunos como “o diabo foge da cruz”! (...) E vão correndo arranjar emprego em uma empresa de telemarketing...
Outros se acomodam na mediocridade profissional, esquecem os objetivos que pretendiam alcançar como educador, e seguem sua jornada automatizada de “dadores de aula”, ignorando os péssimos resultados obtidos por grande parte de seus alunos ou, pior ainda, colocando na família, na mídia, na sociedade ou no próprio aluno a responsabilidade (ou culpa) pelo seu fracasso.
Onde está o erro? Por que isso ocorre com tanta frequência? Como melhorar esse processo? Existe alguma solução? Como explicar o sucesso alcançado pela maioria dos alunos de algumas escolas de pequenos povoados, em países ainda piores do que o nosso, sem salário, sem livros, sem data-show, sem computador, sem laboratórios de ciências nem de informática, sem DVD, sem cursos de robótica, sem lousa eletrônica, sem cadeiras estofadas e sem ar condicionado?
Não precisamos ir muito longe. Basta fazermos uma viagem pelo interior de nosso próprio país que, de repente, vamos encontrar uma casinha pequena onde um educador nato está formando pessoas com excelentes resultados! Pessoas essas que poderão fazer a diferença no futuro.
E esse educador, muitas vezes, não possui sequer diploma, muito menos computador, nem acesso ao datashow. Ele não estudou Piaget, nem sabe manejar a lousa eletrônica (aliás, nem sabe de sua existência). Ele não fez estágio em nenhuma escola, mas aprendeu com os seus alunos, na prática, observando as características apresentadas por eles e tentando encontrar meios de estimulá-los para melhorar cada dia mais um pouco.
Exemplos positivos podem ser apontados em todo o mundo, com pessoas de sucesso que tiveram a oportunidade de ser orientadas por esses educadores de verdade. Alguns desses educadores tinham formação superior. Alguns deles tinham apenas completado o curso básico. Outros eram totalmente leigos, mas totalmente dedicados à compreensão dos alunos que estavam sob a sua responsabilidade. E aprenderam a educar o aluno observando-o com cuidado, analisando suas habilidades e desenvolvendo formas para estimulá-lo a crescer.
Michael Faraday, considerado um dos cientistas mais influentes de todos os tempos, foi educado por uma dessas professoras sem qualquer preparo teórico, que o ensinou a ler, escrever e entender um pouco de aritmética. Aos 13 anos começou a ser ajudado por outro educador nato, George Riebau, um simples encadernador e comerciante de livros, mas que o estimulou a buscar conhecimento nos livros que o ajudava a encadernar. Tanto a professora leiga que o ensinou a ler, escrever e fazer contas, como o encadernador leigo que o estimulou a buscar conhecimento nos livros, aprenderam a lidar com Faraday observando suas características, suas habilidades e sua forma de ser curioso, para estimulá-lo a se desenvolver. E conseguiram!
Por que não podemos fazer o mesmo com nossos alunos? Por que não podemos analisar suas características, suas habilidades, seu foco de atenção e seus interesses, para, a partir daí, desenvolvermos estratégias para estimulá-lo a crescer intelectualmente, emocionalmente e com caráter?
Nosso aluno é único. Nosso filho é único! Suas características são exclusivas dele! Algumas delas são até semelhantes às dos outros, mas essa semelhança não é necessária e nem deve servir para efetuarmos comparações. Elas, as comparações, são sempre desestimuladoras para algum dos lados.
Vamos, então, aprender com cada um de nossos alunos! Eles são a nossa principal referência prática e teórica! Mas para isso precisamos “entrar” no seu universo individual, procurar entender seus entendimentos, sentir seus sentimentos e compreender a sua forma de raciocinar e ver o mundo.
Precisamos, então, assumir a postura de entender cada aluno como um ser alienígena proveniente de uma diferente galáxia. Fazendo assim estaremos mais próximos de aprender com ele as suas formas de entendimento de vida, ao invés de querer compará-lo com seus outros colegas e exigir que tenham o mesmo desempenho! Cada pessoa é diferente. As semelhanças acabam fazendo com que padronizemos o que não deve ser padronizado.
Meninos superdotados, por exemplo, não conseguem manter o interesse por aulas tradicionais, já que nessas aulas espera-se que o aluno “normal” estude exatamente aquilo que o professor dá em sala e que realize as tarefas padrão dos livros. Os superdotados precisam de algo a mais. Eles precisam ser estimulados a pesquisas além do nível ensinado, a criar coisas novas e a desafiar o próprio professor.
Entrar no universo do superdotado é mostrar ao aluno o seu exemplo de entusiasmo pela evolução do conhecimento, pelas pesquisas e pela criatividade para estimulá-lo. Você tem que se “vestir” de um “buscador de conhecimento”!
Meninos com baixa capacidade de entendimento precisam ser estimulados a resolver questões e realizar exercícios inicialmente abaixo de seu nível de entendimento, para que elevem a sua autoestima e sejam quebrados, aos poucos os seus bloqueios emocionais. A maioria deles “esconde” por trás da dificuldade de entendimento, uma grande preguiça mental! Entra-se em seu universo mostrando nossa perseverança em pequenos trabalhos e pequenas atitudes do nosso dia-a-dia. Devemos mostrar o quanto ficamos alegres com pequenas vitórias que alcançamos todos os dias e a nossa força de vontade para realizar a cada dia mais um pouco. Da mesma forma devemos demonstrar alegria verdadeira ao ver seus exercícios realizados. Assim estaremos elevando a sua autoestima e estimulando-o a continuar e progredir a cada dia, mesmo que seu desempenho seja pequeno.
Alunos com T.E.A (Transtorno de Espectro Autista) possuem um único foco de interesse. O mundo gira em torno desse foco. Entrar em seu universo é entrar nesse foco e vivenciar suas emoções. Só assim estaremos ganhando a sua confiança, aprendendo com ele e fazendo parte de seu mundo.
Além das diferenças de entendimento e de interpretação de vida, todas as pessoas, mesmo sem perceber, possuem um foco de interesse. Essa característica marcante do autista também afeta a todos nós, em maior ou menor grau. E quando essas características saem do individual para o grupal, as técnicas a serem usadas podem ser mais gerais.
Esse foco de interesse coletivo foi o que levou a professora do filme “Escritores da Liberdade” a discutir uma música da moda e, mais tarde, realizar a atividade da “Linha de Inclusão Social”, traçada no meio da sala. Para quem viu o filme, foi marcante o momento em que ela dividiu a sala em duas partes e traçou a linha no chão. A cada pergunta feita, aqueles que se consideravam “dentro” do tema, eram orientados a ficar em cima da linha. E esse procedimento foi mostrando a cada aluno o quanto eles tinham de semelhança em suas vidas, seus costumes, suas dificuldades e, principalmente, em seus dramas pessoais.
Agindo dessa forma, podemos ter estudado, ou não, teóricos como Piaget e Wygotsky, mas estaremos utilizando, na prática, e mesmo sem saber, muitos dos conceitos desenvolvidos em suas teorias.
E tudo será sempre lindo e maravilhoso, principalmente a partir do dia em que se assume a reponsabilidade total pela formação de um grupo! Os problemas de relacionamento entre o professor e o aluno passam a constituir novos e importantes desafios para o desenvolvimento de sua competência educacional.
E, ao invés da construção de uma personalidade neurótica e estressada, constrói-se uma personalidade perseverante, dedicada e vencedora. Os fantasmas do meio educacional desaparecem, como que por encanto, já que se tornam pequenos demais em relação ao prazer de estarmos trilhando uma estrada de produtividade crescente e resultados cada dia mais estimulantes.
Esse é o resultado de usarmos o nosso próprio aluno como referência para o aperfeiçoamento constante de nossa competência educacional. 

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Felicidade Relativa X Felicidade Absoluta

Há algum tempo fiz uma crítica sobre uma reportagem que divulgava, em termos mundiais, parâmetros para mensurar a felicidade dos povos. Naquela oportunidade vimos que os países apontados pela reportagem como mais felizes eram, coincidentemente, os que apresentavam os maiores índices de suicídio.
Comentei, então, que a pesquisa realizada por meio de preenchimento de questionários, nem sempre nos mostra a realidade do sentimento das pessoas, mas sim o que as pessoas gostariam de sentir.
Há pessoas com renda individual ou familiar muito elevada que não conseguiram construir verdadeiros relacionamentos afetivos, principalmente por estarem totalmente envolvidos com o aumento de seu capital. Essas pessoas, embora tenham ficado ricas não conseguem entender as razões de se sentir insatisfeitas para com a vida. Elas acabam respondendo que são felizes, simplesmente porque acham que essa é a lógica, embora não sintam isso como sua realidade pessoal.
Da mesma forma há pessoas com renda familiar baixa, mas que convivem satisfatoriamente com os filhos e amigos, sentem amor um pelo outro, ajudam-se mutuamente e não passam necessidades. Essas, muitas vezes, são levadas a entender que não são felizes, já que a mídia mostra que ser feliz é ter o poder do consumo, é comprar carro novo, é ter roupas de marca, e outras coisas mais. Elas acabam respondendo que são infelizes.
Com respostas desse tipo nenhuma pesquisa conseguirá mostrar um mapa de felicidade correto, já que sempre haverá a coincidência entre felicidade e maior poder aquisitivo, o que o mapa do índice de suicídios no mundo demonstra não ser verdadeiro.
A reportagem que comentaremos agora, publicada nas páginas 94 e 96 da revista Veja de 15 de setembro de 2010, dá um valor para a felicidade em dólares, mas não diz, absolutamente, que quem tem mais dinheiro é mais feliz. A ideia é outra. Recomendo a sua leitura.
Mas o foco principal de atenção deve estar, agora, no último parágrafo da reportagem, mostrando uma verdadeira doença emocional que deve ser combatida arduamente: a tendência dos ser humano de só ser feliz se o vizinho tem menos do que ele. Considero isso uma doença. Em uma palestra há muitos anos chamei-a de “felicidade relativa”. Talvez fosse o caso de mudar seu nome para “infelicidade relativa”, mas vamos deixar como está mesmo.
Há, na realidade, duas grandes doenças emocionais impeditivas do estado pleno de felicidade. Uma é essa felicidade relativa que vamos comentar agora. Sobre a outra, que é a necessidade do reconhecimento por tudo o que fazemos, comentaremos em outro momento.
A mídia sempre é sempre colocada como o principal vilão de todos os comportamentos inadequados da sociedade. Em parte isso é verdade. A necessidade de estimular o consumo para aumentar os lucros faz com que ela seja utilizada com essa intenção. A partir dessa ideia são produzidas peças publicitárias mostrando a realização pessoal das pessoas que desfilam defronte de seus vizinhos com carros melhores do que os deles ou que seus filhos usem roupas de marcas melhores do que as dos outros.
Ela, a mídia, colabora muito com essa forma negativa de “ver a vida”, mas temos que lembrar, a todo instante, que o principal programador de nossa mente é o nosso próprio pensamento.
Se “nos deixarmos levar” pelos determinismos consumistas do mercado, estaremos construindo dentro de nós um sentimento incontrolável de “querer mais”, mesmo sem saber o porquê e mesmo sem nem sequer precisar. Isso pode causar ansiedade e insatisfação crescente e incontrolável, como uma bola de neve!
A técnica utilizada pelo mercado é essa! Pessoas satisfeitas com o que tem não dão lucro ao mercado! Provocar a insatisfação é uma estratégia de venda que funciona em todos os lugares! Pode ser uma estratégia antiética, mas ela é usada todos os dias e é o que vemos em todos os canais de TV, é a que lemos em todos os jornais e em todas as revistas!
Provocar a insatisfação e oferecer a solução para o resgate da “felicidade relativa”, até que o vizinho consiga superá-lo novamente... E volta tudo ao estado de insatisfação anterior.
Vamos, então, lembrar, que o tratamento adequado, para que todos consigam iniciar o seu processo de “libertação” dessa ansiedade constante e inibidora do estado pleno de felicidade está dentro de nós mesmos! É a força de vontade para criar verdadeiros objetivos de vida e viver para eles.
Tudo passa pela criação desse seu objetivo de vida! Sim! Um objetivo bem pensado, um objetivo criado após reflexões e que preencha as suas reais necessidades e contemple as suas perspectivas atuais de vida. Para quem já conhece o “Diário do Futuro”, que criei há alguns anos e venho ensinando em minhas palestras, isso é fácil de fazer, já que a criação dessas perspectivas passa a fazer parte da rotina diária.
Não quer dizer que esse objetivo tenha que ser imutável a partir dessa criação! Nada disso! Ele poderá ser revisto e ampliado a cada dia, exatamente como fazemos em nosso “diário de futuro”.
Mas o importante é que, após a criação desse objetivo de vida, trabalhemos nas metas práticas para o alcance do que desejamos, fazendo o planejando diário para a realização de cada uma dessas metas.
Qualquer sugestão de consumo fora desses planos deve ser analisada com cuidado para verificar se está dentro da nossa lista de prioridades. A falta dessa análise consciente é o que nos leva a fugir dos objetivos traçados e entrar pela febre do consumo inadequado e angustiante.
E, em paralelo com isso, criar dentro de nós um sentimento de satisfação para com as coisas que temos. Qualquer momento de reflexão voltado para a análise de nossas conquistas mostrará o quanto já produzimos e permitirá que reconheçamos os valores de tudo o que temos e somos.
Assim pensando estaremos desenvolvendo a nossa capacidade de estar feliz com o que temos, juntamente com o discernimento para criar novas perspectivas de vida e novos planejamentos de futuro.
A satisfação pessoal decorrente da análise de nossas conquistas possibilita nossa libertação da tendência de fazer comparações com os outros. Estaremos trabalhando mentalmente centrados em nós mesmos e em nosso núcleo familiar.
Aprendemos assim que a construção de uma estrutura de felicidade será facilitada pelo exercício de uma comparação diferenciada, ou seja: Entre nossos planejamentos de ontem, nossas conquistas de hoje e nossas perspectivas para amanhã.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Exclusão Social

No momento em que o desfile do Sete de Setembro apresenta, em sua formação, um desfile paralelo chamado de “Grito dos Excluídos”, não podemos deixar de comentar sobre outro tipo de exclusão social que está sendo realizado com a nossa participação inconsciente!
Essa exclusão não é a daqueles que estão no desfile dos excluídos, mas sim a exclusão daqueles que nem sabem que estão sofrendo esse tipo de problema, principalmente por estarem sendo “dopados” oficialmente, já que foram rotulados como “doentes” por meio de diagnósticos precipitados.
Enquanto alunos deficientes estão sendo “incluídos” nas escolas normais, mesmo porque hoje isso é lei, alunos normais estão sendo transformados em deficientes, como resultado dos efeitos colaterais de remédios controlados que nunca precisariam ser tomados por eles.
Minha preocupação é que essa exclusão social tem a nossa participação inconsciente, já que é nas escolas que esses alunos são mal compreendidos e rotulados como portadores de anomalias, por nós mesmos!
Nossa ação quase que inconsciente, como professores ou como psicopedagogos, tem sido o envio de relatório de acompanhamento, mostrando ao psiquiatra ou ao neurologista toda a sintomatologia apresentada pela criança, claramente característica de tais anormalidades.
O médico percebe os sintomas e confirma que é um comportamento continuado por meio do relatório da escola, restando a ele apenas confirmar o diagnóstico e receitar o tratamento medicamentoso adequado.
Mas nossa constatação é preocupante:
Mais de oitenta por cento desses alunos com sintomatologia característica de dislexia, discalculia, déficit de atenção com hiperatividade, transtorno de espectro autista, esquizofrenia, déficit cognitivo, memória seletiva e outras anomalias, e que estão ou estiveram sendo acompanhados pelos educadores e psicopedagogos sob a orientação do IUPE, sejam na escola em Salvador (onde é a sede também de nosso instituto de pesquisas) como por professores de outras cidades e países, estão, hoje, apresentando comportamento e características cognitivas perfeitamente normais.
A conclusão que temos chegado é que essas crianças e adolescentes nunca tiveram qualquer dessas anomalias, mas sim bloqueios emocionais graves com causas diversas, provocando o aparecimento de todo um comportamento sintomático característico desses distúrbios, transtornos e doenças.
Só temos conseguido chegar a tais conclusões devido ao nosso processo metodológico de adequar o ensino às habilidades e possibilidades do aluno, independente da série que ele está matriculado, tendo o professor, como única preocupação, entender o seu nível de entendimento cognitivo, a sua habilidade desenvolvida e, a partir daí, elevar a sua autoestima e fazê-lo progredir de onde ele está para mais além.
Esses alunos, aos poucos, foram abandonando os medicamentos e voltando a ter uma vida normal (alguns deles nunca a tiveram antes) e, em pouco tempo, todos já acompanhavam a turma na qual estavam matriculados, com resultados semelhantes à média dos seus colegas ditos “normais”.
Gostaria, nesse ponto, de deixar claro que as anomalias realmente existem, ou seja, há alunos com doenças reais, dislexias e discalculias verdadeiras, esquizofrenias constatadas, déficit de atenção e hiperatividade patogênica e outras.
Mas a nossa preocupação é com aqueles que, sem estarem verdadeiramente acometidos dessas doenças, estão sendo tratados como tal, fazendo uso de medicamentos controlados cujos efeitos colaterais serão extremamente prejudiciais ao seu desenvolvimento intelectual e psíquico.
Para exemplificar já tivemos casos de alunos sendo equivocadamente diagnosticados como portadores de déficit de atenção com hiperatividade e que, na realidade, apresentavam elevado grau de capacidade cognitiva (superdotados).
Alguns deles já faziam uso de medicamentos controlados quando houve a constatação do fato. Todos mudaram seu comportamento em relação aos estudos após passarem por um processo de adequação do método às suas necessidades de enfrentamento de desafios acima de sua capacidade atual.
A Conselheira Theresinha Guimarães Miranda, do Conselho Estadual de Educação do Estado da Bahia, relatou em seu Parecer 170/2009 (referendado pela Resolução CEE 79/2009) procedimentos interessantes e maravilhosos para a adequação das escolas à inclusão social dos deficientes. Já é um excelente passo para mudarmos alguma coisa.
Mas precisa haver um meio de, além de incluir os deficientes, não transformar alunos normais em deficientes, como estamos fazendo. Aos poucos, devido aos efeitos colaterais dos remédios que não precisariam estar sendo tomados, limitamos sua capacidade cognitiva. Mais tarde vamos precisar incluí-los entre os que precisam de atenção especial.
Na mesma Resolução 79 do Conselho Estadual de Educação da Bahia, o art. 15 do cap. IV já determina que “(...) Os professores, diretores, especialistas e outros profissionais da Educação deverão participar de programas de formação continuada, para qualificação específica.” Ou seja: o Conselho está atento a isso e já tem uma forma de possibilitar o treinamento dos professores para evitar tais problemas.
Mas precisa haver um meio desse programa de formação incluir, necessariamente, esse tipo de entendimento, para evitar que mais crianças e adolescentes sejam prejudicados em sua formação intelectual e emocional, simplesmente por não estarem sendo compreendidos em suas carências, nem em suas necessidades básicas de comunicação e entendimento de vida.
Precisamos refletir muito sobre isso e, além de refletir, agir! Tentar, a cada momento, compreender, em cada aluno, qual a verdadeira causa de seu comportamento e de suas características cognitivas e psíquicas. Podemos estar diante de um caso grave de bloqueio emocional, que necessita de um acompanhamento psicopedagógico ou neuropedagógico, ao invés de um caso, também grave, mas de anomalia neurológica ou psiquiátrica.
Antes de enviar um relatório conclusivo com a sintomatologia da doença, precisamos esgotar todas as possibilidades de tais comportamentos ou dificuldades serem fruto de bloqueios emocionais.
Nossa responsabilidade é grande, o trabalho é árduo, a dedicação tem que ser total, tudo isso pode ser até cansativo, mas estamos falando de crianças que poderão ser prejudicadas se não agirmos com total cautela e com total compreensão.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Ateísmo pseudo-religioso e ateísmo pseudocientífico

O título pode até parecer estranho ou polêmico, mas não é essa a minha intenção! Preciso apenas mostrar uma triste realidade: Existe, e é preocupante, um grande número de intransigentes e extremistas, e que muitas vezes nem se apercebem de seu próprio erro. Esse comportamento é o que chamo de ateísmo em suas duas formas mais perniciosas: de um lado o pseudo-religioso e, do outro, o pseudocientífico.
Se as consequências desse tipo de pensamento obtuso fizessem mal apenas aos próprios, eu não ficaria tão preocupado. Mas as crianças e adolescente que convivem com eles poderão absorver tais atitudes e, infelizmente, terem seu desenvolvimento intelectual prejudicado.
Sabemos que a criança e o adolescente tendem a eleger seu professor como seu mentor, mesmo inconscientemente. Isso significa que suas palavras, suas atitudes e sua forma de pensar podem estar sendo construídas sob a influência desse professor.
E se a intelectualidade plena de nossos alunos, junto com a formação de seu caráter, é o nosso mais importante objetivo, temos que fazer alguma coisa urgente, para evitar a formação de mais uma geração de “limitados”!
Afinal, nossos jovens precisam estar aptos para, a qualquer momento, conseguir compreender o que ouvem e o que leem e, ao mesmo tempo, ter o devido entusiasmo para descobrir fundamentos que os auxiliem a elaborar os necessários questionamentos para quem quer saber mais do que, simplesmente, o conhecimento elementar. Eles precisam ser estimulados a isso! E nunca a atitudes intransigentes...
Mas para conseguir avançar nessa etapa do processo de ensino o educador precisa, antes de qualquer preparação técnica ou metodológica de suas aulas, “se livrar” do que lhe resta desse ateísmo religioso ou científico ou, como eu chamei no título dessa conversa, ateísmo pseudo-religioso e pseudocientífico.

Ateísmo pseudocientífico

E o que é o ateu pseudocientista? É aquela pessoa que se apoia em frágeis conhecimentos científicos para se sentir o “dono da verdade” e contestar tudo o que está fora da sua capacidade de entendimento. Basta observarmos a intransigência de alguns educadores, principalmente acadêmicos recém-formados, no que diz respeito ao olhar da tradição religiosa para os mistérios do mundo! Como acabaram de estudar as maravilhas do rigor científico e a metodologia da pesquisa, acham que conseguiram “entender” uma série de “teorias científicas” explicando praticamente tudo.
São mais realistas do que o rei, pois conseguem ter mais certeza nos resultados científicos do que os próprios cientistas. Já os verdadeiros cientistas, mesmo com todo rigor da pesquisa e com todo conhecimento adquirido ao longo de muitos anos de estudo e experiência de vida, continuam tendo dúvidas sobre a interpretação dos resultados de suas experiências e cálculos. Esses ainda mantém a humildade de respeitar conceitos tradicionais, já que sabem ser muito difícil o domínio da verdade absoluta.
Os pseudocientistas ignoram e negam tudo o que não compreendem, ao invés de assumir a humildade da ignorância. Não defender como verdade aquilo que não esteja provado em laboratório é sua obrigação, mas considerar falsos os conceitos tradicionais por não entendê-los ainda, é uma atitude infantil.
A verdade possui três caminhos de entendimento. O caminho científico é o da experimentação. O caminho filosófico é o da especulação. O caminho teológico é o da tradição. Nenhum dos três deve ser ignorado. Mas nenhum dos três é autossuficiente.
Como bem disse Marcelo Gleiser na página 41 de seu livro “Criação Imperfeita: Cosmo, Vida e o Código da Natureza” (Rio de Janeiro: Editora Record, 2010), referindo-se ao trabalho contra a religião feito atualmente pelos cientistas, filósofos e jornalistas ateus chamados de “Os quatro cavaleiros do apocalipse”: “(...) Ridicularizar essa necessidade humana, como fazem os “Quatro Cavaleiros” e tantos outros, é demonstrar uma profunda ignorância (ou indiferença?) do que passa pelos corações e mentes de bilhões de pessoas espalhadas pelos quatro cantos do mundo.” (pg. 41).
Eu ainda digo que ignorar a parte teológica do conhecimento é se achar em um nível de conhecimento superior a todos os demais habitantes desse nosso planeta... Afinal, nossa inteligência e nosso conhecimento ainda estão muito aquém do que precisamos para negar com propriedade qualquer conceito sobre os grandes mistérios do mundo!
Afinal, nossas capacidades de ver e ouvir ainda são muito incipientes. Como disse Maturana: “(...) Não vemos o “espaço” do mundo, vivemos nosso campo visual; não vemos as “cores” do mundo, vivemos nosso espaço cromático (...)” (pg.28 de Maturana, Humberto R. e Varela, Francisco J. “A árvore do conhecimento: as bases biológicas da compreensão humana”. São Paulo: Palas Athena, 2001).
Nem Stephen Hawking, um dos mais famosos cientistas britânicos, desprezou a possível interferência de Deus para dar um “empurrãozinho” na compreensão científica do universo. Em seu livro Uma Breve História do Tempo, de 1988, Hawking dizia que a ideia de uma criação divina poderia estar incluída na compreensão científica do Universo: “(...) Se nós descobrirmos uma teoria completa será o triunfo definitivo da razão humana – pois então nós deveremos conhecer a mente de Deus”.
Embora em seu próximo livro (The Great Design) ele tenha mudado um pouco de opinião e diga que Deus não foi obrigatoriamente necessário na criação do universo, Hawking ainda não O descartou completamente. Ele continua mantendo Deus para explicar o inexplicável.

Ateísmo pseudo-religioso

Mas vamos agora ao ateísmo pseudo-religioso. Esse é o praticado pelos religiosos que não acreditam na ciência. Ora! Como entender o mundo se não o trabalharmos de forma prática? Para que serve nossa inteligência, nossa criatividade, nossa capacidade de raciocínio, se não for para produzirmos algo em prol da melhoria das condições de nossa própria sobrevivência?
Como poderá um religioso contribuir para o bem da humanidade se ele se mantém de “braços cruzados” aguardando a providência Divina. É preciso lembrar que temos pernas para andar, braços para carregar as coisas, cérebro para raciocinar, criar, descobrir e inventar... E também, eventualmente, até para orar... Mas... Só para orar?
Onde está a nossa responsabilidade para realizar as tarefas do mundo, para criar novas formas de tratamento médico, para reduzir a mortalidade infantil? Será que toda essa nossa capacidade intelectual foi criada para aprendermos a “cruzar os braços” e esperar que a providência Divina cure nossos enfermos, pague nossas dívidas, forneça a nossa comida e construa nossas casas?
Nossa capacidade intelectual existe para ser utilizada em prol da humanidade e, para isso, precisamos estimular a pesquisa, o conhecimento científico, o questionamento de mundo, sem medo de tais atitudes eliminarem nossas crenças. Quem perde sua crença ao avançar nos estudos, nunca teve crença real nenhuma. Foi apenas acostumado a acreditar em algo que nunca entendeu como verdade! Isso é uma ignorância teológica e nunca religiosidade!
Portanto, não permitir o estudo dos resultados das pesquisas científicas é um radicalismo destruidor da inteligência humana. Ignorar a seleção natural observada por Darwin, assim como não permitir o estudo das novas teorias sobre a origem do universo, é um verdadeiro retrocesso na caminhada do conhecimento!

Como anda esse ateísmo no mundo

O ateísmo pseudocientífico tem um propagandista atuante muito famoso, Richard Dawkins, autor de “Deus, um delírio”. Sua maior preocupação é insistir na eliminação das religiões e da crença em Deus, elementos que ele considera os responsáveis pelo atraso da humanidade e o maior causador de todos os males do mundo!
O ateísmo pseudo-religioso tem propagandistas em todas as esquinas onde se instala uma igreja de “fundo de quintal”. Religiosos evoluídos sabem que ciência e religião não se contradizem, mas se complementam enquanto não surgem as comprovações científicas dos eventos ainda na esfera do incompreensível.
Cientistas evoluídos sabem que há fatos ainda incompreensíveis, e sempre os haverá. E entendem, também, que alguns desses fatos podem vir a causar angústias e, por isso mesmo, precisam de dogmas religiosos para trazer a paz aos corações de grande parte da humanidade.
Esses cientistas sabem, também, que o conhecimento tradicional (religiões antigas) apresenta explicações teológicas que precisam ser periodicamente analisadas pela ciência, tanto para encontrar razões científicas para os fatos, como para encontrar razões contestatórias. Tudo é lucro para a humanidade. Ignorar é um atraso de vida!
Nossas faculdades de sociologia, filosofia e história concentram os maiores índices de ateísmo pseudocientífico. Alguns desses formandos licenciados já vão para as escolas com uma bagagem pesadíssima de materialismo atuante!
Os que escorregam nas calçadas e acabam entrando nessa igrejas de “fundo de quintal” já chegam nas escolas munidos de todo um aparato moralista-religioso mais intransigente ainda do que os materialistas, tentando impingir nas crianças a ideia de que tudo é proibido e que todos precisam se converter para conseguir a “salvação”.
No mundo a divisão maior está claramente definida entre Europa: materialismo exacerbado; e Estados Unidos: religiosidade intransigente. Enquanto grande parte das escolas europeias proíbe o ensino dos conceitos religiosos, nos Estados Unidos se dá o inverso, havendo movimentos grandes para negar o estudo do evolucionismo e da criação do universo a partir do Big Bang!
Quanta intransigência! Precisamos eliminar esses extremismos e dar oportunidade a nossas crianças e adolescentes de estudar todas as faces da mesma verdade, principalmente para que sempre saibam que, por mais que nós estejamos certos de nossas opiniões, sempre poderá haver outras verdades, mais verdadeiras ou menos verdadeiras do que a nossa, a depender do ponto de vista, mas que todas precisam ser respeitadas.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Resposta a um comentarista anônimo

Num comentário sobre um artigo sobre o cérebro humano e a inexistência do tempo, um anônimo disse:

"De qual tempo você está falando, do psicológico ou físico?
Como você pode dizer que dois eventos são ou não simultâneos se tempo não existe? é o mesmo que dizer que dois corpos estão no mesmo lugar, mas espaço não existe...
Na minha opinião, uma teoria só é boa o bastante se é válida sempre e para tudo, sem qualquer contra exemplo, daí eu te pergunto como você explicaria a deformação espaço temporal devido à presença de um corpo massivo? Como o tempo, assim como a massa e o espaço, são compreendidos da mesma forma nas transformações de Lorentz? Por fim, como você explica o fato da teoria da relatividade inserir o tempo como mais uma dimensão da nossa existência? Ou seja, vivemos num mundo de 4 dimensões, e não de três.
Se tempo não existir, então o GPS não poderia funcionar (são nesessárias correções levando em conta a teoria da relatividade geral, por exemplo). Conclusão: trata-se no artigo acima do tempo psicológico, e não físico!" 

Aqui vão algumas considerações:
Quanto à pergunta (tempo psicológico ou físico) o que o autor se refere é o psicológico. Aquela impressão de que o tempo não passou ou a impressão de que ele voou!
Sem dúvida falar de eventos simultâneos na inexistência temporal seria uma redundância. Todos os eventos serão simultâneos havendo essa inexistência.
Sua declaração de que “uma teoria só é boa o bastante se é válida sempre e para tudo, sem qualquer contra exemplo” me leva a entender que você considera a inexistência de teorias, certo? Digo isso porque até hoje, em todos os estudos que tenho feito, todas as grandes teorias foram invalidadas mais tarde a partir do aparecimento de novas premissas ou da descoberta de novas variáveis.
Um bom exemplo é a física newtoniana que, embora estudada em todos os cursos de física em todas as escolas e universidades, já é sabidamente incorreta em muitos de seus aspectos.
Outro exemplo constantemente em mutação: as teorias de formação do universo.
“As “verdades” que obtemos como a lei da gravitação universal de Newton ou a teoria de relatividade de Einstein, apesar de brilhantes, funcionam apenas dentro de certos limites.” (pg. 25 de Criação Imperfeita: Cosmo, Vida e o Código da Natureza. Rio de Janeiro: Editora Record, 2010, de Marcelo Gleiser). E todas são teorias científicas!
Exemplos de teorias que poderão sofrer mudanças: aspectos da teoria da relatividade de Einstein. João Maqueijo, por exemplo, um dos físicos de grande proeminência nas pesquisas atuais, Cientista português radicado na Inglaterra, defende a ideia da velocidade da luz variável e prova isso por meio de teorias da física teórica, mas ainda sem comprovação na física prática. E pelas teorias de Einstein a velocidade da luz é constante.
Quanto ao tempo ser considerado a quarta dimensão, isso realmente é uma prática utilizada por diversos estudiosos. Polêmico seria dar uma opinião conclusiva nesse assunto, já que a própria ciência continua com resultados diferentes, contrários e contraditórios em diversos trabalhos, sejam eles teóricos ou práticos.
Considerando o tempo uma existência, podemos considerar as dimensões em que vivemos com ela (quarta) ou sem ela. Mesmo assim não vivemos em um mundo com três dimensões. Hoje sabemos que existe a possibilidade de estarmos em um mundo de, no mínimo, nove dimensões. O desafio científico é provar essa realidade em laboratório, já que teoricamente existe essa conclusão.
Cada uma das suas outras perguntas deve servir como elemento instigador das pesquisas que concluiram por algo incompatível com elas. Mas sabemos que a ciência funciona assim. Observamos o fato. Analisamos o fato em todos os aspectos que pudermos no estágio atual da nossa tecnologia. Criamos, então, uma teoria para esse fato. O problema é quando alguns cientistas, após elaborarem uma teoria, teimam em considera-la verdadeira para sempre e para qualquer condição. Isso não existe.
Lembre que “(...) não podemos ter certeza se nossas extrapolações estão corretas – e cientistas não deveriam afirmar o contrário – até termos confirmação experimental.” (pg.24 de Criação Imperfeita: Cosmo, Vida e o Código da Natureza. Rio de Janeiro: Editora Record, 2010, de Marcelo Gleiser).
O GPS funciona. É fato. Não podemos negar fatos, mas tentar entender se estamos usando uma teoria inadequada para explicá-lo. Então o GPS não parará de funcionar porque o conceito de tempo que utilizamos está errado. A maçã continua caindo da árvore e muitos estudiosos continuam sem ter dúvida nenhuma das razões que a levam para baixo! Mas muitos cientistas ainda não conseguiram entender as razões reais da existência da força da gravidade! Serão eles “burros”? Ou existe, realmente, alguma dúvida a respeito?
Não podemos abandonar uma teoria só porque ela não funciona para explicar alguns fatos. E também não podemos achar que para ser uma teoria válida precisa de comprovação prática. Até hoje a ciência usa o BOZON DE HIGGS e até hoje ninguém descobriu se ele existe mesmo!
Como disse Marcelo Gleiser: “(...) o que importa não é chegar a verdades absolutas, mas ao conhecimento.” Afinal, verdades absolutas estão longe da nossa capacidade de entendimento, mesmo que sejam bastante óbvias! E isso me faz lembrar uma aula que dei sobre humildade, em nossa escola, quando um aluno me perguntou se um cientista, com todo o seu conhecimento, pode ser humilde. Ao que eu respondi: A humildade verdadeira chega exatamente quando o conhecimento começa a se transformar em sabedoria. Enquanto estamos no início do caminho tudo, para nós, é certeza absoluta e contestamos quem nos contradiz. Quando o conhecimento começa a tomar forma é que “caímos na real” e vemos que precisamos das teorias e das conclusões, mas que temos que estar prontos para mudá-las a cada momento em que novos conceitos e novas premissas aparecem.